
Caro Paulinho,
lamento muito não ter podido te acompanhar nas visitas programadas para a população mais pobres dos Bairros.
Sinto muito mesmo e só queria ir conversar e falar sobre os Direitos Civis, tão vilipendiados em nossa amada Montenegro. Quadro popular e real agravado pelo frio, falta de remédios. O povo está doente, muito doente.
Ocorreu-me, ao fim da manhã, um ligeiro desconforto no peito, tórax, acelerando as batidas cardíacas, acompanhado de suor frio.
Aguardei um momento no trabalho e a Simone obrigou-me a ir a um médico.
Hesitei, mas fui.
O médico, imediatamente, recomendou-me repouso, prescrevendo uma série de exames na área cardio-vascular. Nem sei se era para tanto e tenho que trabalhar dez horas por dia, mais três na campanha a deputado federal, à noite; e, ainda, mais três, nas minhas teses doutorais. O que se repete aos sabados e domingos. Uma rotina normal para mim, há anos.
Maior surpresa foi que, ao sair do consultório, encontrei um velho camarada, pastor evangélico luterano aposentado a quem admiro e escuto muito.
Surpreendente: ele me disse que eu me encontrava profundamente triste.
Ao ouvi-lo, escorreu-me uma lágrima às faces do meu já sulcado rosto.
Ao perceber, o pastor garantiu-me não haver mais grave moléstia que a dor na alma. E que por isto Cristo suportou tanta dor física, o flagelo, as ofensas, porque Ele, Jesus Cristo, queria que fôssemos livres, perdoar nossos pecados, lavar a nossa alma, varrendo do nosso interior qualquer impureza... Cristo sofreu a maior de todas as tristezas.
O pastor disse: enfrentou... Exatamente, porque não precisaria ter enfrentado tanta dor, mas tinha que enfrentá-la para salvar a humanidade perdida.
Pensei... E disse-lhe: "Não sou e nem pretendo ser Cristo".
Ao que rebateu: "Mas, tu és um ser humano".
À noite, recostei-me e telefonei para o médico que confirmou minha abstenção total da política e do trabalho, imediatamente, até a análise do resultado dos exames, em clínicas de Montenegro e na Santa Casa.
De tudo, entretanto, ocorreu-me aquela sentença afirmando que eu estava profundamente TRISTE.
Paulinho, estou TRISTE, muito TRISTE com o quadro político na nossa Montenegro.
O mais leve é apenas confirmar a incompetência sui generis dessa Administração Pública atual de Montenegro. Exatamente, porque não esperava nada diferente. O problema maior não é este. O problema maior é a fome, a doença, o abandono a que os pobres estão submetidos. Nunca presenciei nada parecido. E tu sabes que este ambiente de miséria e pobreza eu vivi por todos os anos da minha infância e parte da adolescência. Não deveria me comover tanto, ao ponto de deixar-me profundamente triste.
Agora, o mais grave, e o que deve fundamentar minha TRISTEZA é o estado das pessoas da periferia.
Paulinho, as pessoas não tem atendimento médico adequado, não se alimentam, não tem remédios, estão profundamente doentes física e moralmente. As pessoas não realizam projetos de Vida ou sequer os têm. Não devem ter projetos de Vida, porque Vida digna não há. Isto ocorrendo, sequer poderão sonhar com uma condição social melhor. Um futuro? Como? Se as crianças olham para os pais desanimados e pensam o quê?
O ápice acontece na Esperança. Mais de cem crianças e outra centena de pais, centenas de moradores, pessoas humildes e crentes. Tiveram um aceno de felicidade com a nova escola, o novo ginásio. Festa!!!! Alegria!!!! Felicidade!!!! "Afinal, fizeram alguma coisa por nós... Lembraram-se de nós..."
Vinte dias depois desmorona a perspectiva e retorna a realidade cruel com a falta de respeito. A Escola interditada pelo Poder Judiciário e um Ginásio que alaga a qualquer chuva...
Vem a revolta, o descrédito com os políticos, a tristeza popular.
Pois, foi esta TRISTEZA DO POVO que assumi quando estive na Esperança sábado. Fiquei arrasado ao saber da realidade... Não pela interdição do prédio da escola ou pelo alagamento que vi no Ginásio - fatos que havíamos previsto e alertados antecipadamente, com relatórios, documentos, etc. -, mas pela tristeza das pessoas, a revolta, a incredibilidade popular com mais um sonho proibido, com mais um expectativa completamente destruída.
Fui às casas, falei com as pessoas, com as crianças:
"TIO, PORQUE ACONTECEU ISTO COM A NOSSA ESCOLA?... O QUE ACONTECERÁ, FICAREMOS NA RUA? .... ONDE COMEREMOS TEREMOS AULA? O QUE ACONTECERÁ CONOSCO? ACONTECE ISTO NAS ESCOLAS DA CIDADE?"No mesmo dia, em miha casa, chega uma mãe a me dizer outras barbaridades apresentadas ao Ministério Público sobre o que acontece em algumas das nossas escolas infantis, com funcionários pedindo licença para tratamento de saúde espiritual pelo terror que vivenciam dentro das escolas.
E eu? Nada posso fazer? Estou impotente, porque o máximo é confortar as pessoas de que um dia tudo será diferente.
De fato, são pesadas pás de maldade jogadas sobre nós. Só poderia advir a TRISTEZA.
Estou MUITO TRISTE amigo.
Porém, engraçado, a revolta também toma conta de mim e, espetacularmente, me dá um ânimo. É contraditório, mas voltarei com muito mais força que antes. Aproveitarei para melhorar minhas propostas condizentes com os Direitos Civis, a promoção da PAZ e da FELICIDADE SOCIAL, através dos meios democráticos.
Assim, retomaremos todas as visitas e caminhadas, mesmo nesta noites frias e esta ausência do SOL da esperança popular.
Peça aos companheiros que reforcem a luta, não esmoreçam na defesa do povo - que é realmente IMORTAL!
Caloroso e respeitoso abraço.
Luiz Américo Aldana - Paraguaio
Candidato Deputado Federal PSOL 5095